Taxonomia e/ou Sistemática

Taxonomista é alguém que trabalha com taxonomia. Sistemata é alguém que trabalha com sistemática. Esses dois ramos da Biologia podem, muitas vezes, aparecer como sinônimos e não tem problema nisso, mesmo porque tratam de campos que se sobrepõem muito (você pode utilizar como sinônimos também, e suas provas farão isso). A taxonomia pode ser entendida como a ciência preocupada em dar nomes aos seres vivos, bem como organizar os seres vivos em sistemas de classificação. A sistemática foca mais nas relações de parentesco entre os diferentes grupos de seres vivos. A taxonomia e a sistemática se sobrepõem (e, normalmente, estão sendo feitas pela mesma pessoa), porque os grupos criados atualmente para classificar os seres vivos são baseados nessas relações de parentesco. Temos evidências que suportam a hipótese de que todos os seres vivos conhecidos possuem um ancestral comum. Baseado nisso, os seres vivos possuem diferentes níveis de parentesco. Por exemplo, bonobos, humanos e camundongos são parentes, como todos os seres vivos conhecidos. Mas quem é parente mais próximo de quem? Sabemos que bonobos e humanos são mais aparentados entre eles do que com camundongos. Para tentar entender melhor, pense nas relações de sua família. Vou dar um exemplo, digamos que você tenha uma irmã e um primo. Os três possuem ancestrais comuns, seus avós, por exemplo. Mas quem tem maior proximidade? Você e sua irmã possuem maior proximidade em termos de parentesco do que os dois em relação ao seu primo. Em nossos exemplos, bonobos e humanos, você e sua irmã, poderiam ser agrupados em um determinado grupo, e o camundongo e seu primo ficariam de fora dos respectivos grupos. Mas, nem sempre esse foi o critério de classificação. Antes de falar mais sobre as teorias sistemáticas mais atuais, vamos conhecer mais sobre as ideias de um cientista que teve grande importância na história da Biologia.

Analogia comparando as relações de parentesco de uma família com as relações de parentesco de alguns grupos. As setas na imagem da direita representam os ancestrais. Na genealogia familiar podem ser representados pelos avós.

Lineu e as Bases da Classificação

Provavelmente, os seres humanos classificam os seres vivos em grupos desde tempos remotos e por motivos muito práticos. Por exemplo, faz todo sentido um grupo ancestral de pessoas ter organismos classificados como “venenosos”. Isso é importante para saber quais tipos de seres vivos você deve evitar ficar por perto ou comer. Entretanto, a ciência classifica a diversidade para entender os seres vivos de forma mais abrangente do que isso, para perceber padrões nessa diversidade e aprender mais sobre os processos relacionados com o surgimento de todas essas espécies. Classificações mais sistemáticas dos seres vivos podem ser encontradas na Grécia antiga, principalmente nos pensamentos de Aristóteles, que criou certos nomes utilizados ainda hoje, como crustáceos e insetos. Podemos dizer que a base da classificação moderna está em um naturalista sueco chamado Carl Von Linnéé, que viveu de 1707 até 1778. Esse pesquisador ficou mais conhecido pela versão latina de seu nome, Lineu. Sua principal obra é o livro “Systema Naturae”, publicado em 1735. Mas qual a contribuição de seus trabalhos para sistemática? De forma geral, podemos levantar três componentes inovadores dos estudos de Lineu: (1) o critério de classificação que utilizou, (2) a nomenclatura binomial e (3) as categorias taxonômicas.

Lineu e o livro que mudou a história das classificações biológicas.

Critérios de Classificação

Lineu achava que muitos dos critérios utilizados anteriormente acabavam agrupando seres vivos muito diferentes. Por exemplo, se nossos grupos se baseassem em coisas como a capacidade de voo. Nesse caso, vamos reunir organismos tão diferentes como abelhas, morcegos, pterossauros (já extintos), aves, mosquitos, etc. Ou se o critério for o local onde vivem. Na categoria “aquáticos” vamos ter tubarões, lambaris, golfinhos, vitórias-régias, ostras, jubartes, lagostas, polvos, estrelas-do-mar, e por aí vai. Nesse grupo temos muitos seres vivos com pouca similaridade. A inovação de Lineu foi focar em características dos próprios organismos, de sua estrutura, para criar seus grupos. Assim, ele agrupou os animais olhando para diversas semelhanças que apresentavam em sua estrutura corporal. Para as plantas, ele utilizou principalmente as características dos órgãos reprodutivos para a classificação.

Se você utilizar o critério de classificação “capacidade de voar” vai juntar organismos pouco semelhantes.

Nomenclatura Binomial

Na época de Lineu, não havia sistemas de classificação aceitos de forma geral ou regras que deveriam ser utilizadas por todos os cientistas para dar nome para as diferentes espécies. De qualquer forma, era necessário ter um nome aceito e reconhecido em diferentes lugares para poder falar de uma determinada espécie. Imagine que você é um cientista em uma época na qual começam a chegar formas de vida de diferentes continentes e a diversidade, que sabia que era grande, se mostra gigantesca. Se você utilizar nomes populares, pode acabar se perdendo. Por exemplo, puma, leão-baio, onça-parda, suçuarana, são todos nomes comuns de uma mesma espécie de grande felino. Além disso, como não havia uma regra para dar os nomes científicos, apareciam coisas como “Solanum caule inerme herbaceo, foliis pinnatis incisis, racemis simplicibus”. Tudo isso, galera, era o nome do tomate! Praticamente uma descrição das características dele. Pra facilitar a comunicação e organizar essa bagunça, Lineu propôs que o nome científico de todos os seres vivos deveria ser composto por duas palavras. Por causa disso, esse sistema é chamado de nomenclatura binomial. Você já deve ter visto alguns nomes científicos, como o da nossa própria espécie, Homo sapiens. O nome científico do puma é Puma concolor, do tomate é Solanum lycopersicum. Além de ser binomial, esse sistema possui outras regras que são universalmente aceitas para nomear os organismos (vírus é uma exceção). Algumas dessas regras mudaram um pouco o sistema de Lineu. Perceba na figura a seguir, que os nomes científicos são escritos em latim e precisam estar em itálico (ou, de alguma forma, destacados no texto, caso você escreva em seu caderno, sublinhados, por exemplo). Vimos que são dois nomes (Homo sapiens), o primeiro representa o nome do gênero (Homo), e o segundo é chamado de nome/epíteto específico (sapiens). Apenas os dois juntos, Homo sapiens, representam o nome científico. O nome genérico deve sempre ser escrito com a primeira letra maiúscula. Já o nome específico deve possuir todas as letras minúsculas. Algumas vezes, em um texto, após ter aparecido o nome científico uma vez, ele pode ser abreviado em utilizações futuras. Por exemplo, Homo sapiens vira H. sapiens. Além disso, nenhuma espécie pode possuir o mesmo nome científico. A ideia é poder falar um nome e outras pessoas poderem descobrir exatamente a espécie sobre a qual você está falando, sem ambiguidades.

Nomes científicos de algumas espécies. Perceba que são dois nomes. O primeiro sempre em letra maiúscula.

Categorias Taxonômicas

Você deve ter ficado pensando enquanto lia a sessão anterior. Gênero? Espécie? Então, pessoal, como vimos, a sistemática não está interessada apenas em dar nomes aos organismos, mas também em classificar esses organismos em grupos que nos ajudem a compreender melhor a biodiversidade. As sociedades ocidentais, de forma geral, gostam muito de classificar as coisas colocando “caixas dentro de caixas”. Por exemplo, vamos imaginar uma caixa imaginária que chamamos de “roupas”. Dentro dessa, caixa colocamos diferentes tipos de coisas que consideramos como fazendo parte dessa categoria. Mas, pra facilitar nosso uso das roupas que existem dentro dessa caixa, resolvemos utilizar algumas caixas menores para separar as roupas. Então, criamos mais caixas. Daí temos as caixas “roupas íntimas”, “meias”, “casacos”, “calças”, “camisetas”. Dentro das caixas menores, podemos criar caixas ainda menores. Por exemplo, na caixa “calças” têm as caixas “jeans”, “moletom”, “sarja”, etc. De forma parecida, Lineu estabeleceu as categorias taxonômicas. Gênero e espécie são dois exemplos de categorias taxonômicas. Pensando na analogia com as caixas, a caixa gênero é maior. Então, podemos colocar diferentes espécies dentro de um mesmo gênero. Por exemplo, o gênero Canis possui diferentes espécies, como Canis lupus (lobo) e Canis latrans (coiote). Gênero e espécie são as únicas categorias taxonômicas? Se com o exemplo das roupas já podemos criar diferentes níveis de caixas para organizar melhor as coisas, imagina com os dois milhões de espécies conhecidas! Certamente precisamos mais do que duas categorias taxonômicas para organizar tudo isso. Na verdade, atualmente existem bem mais categorias que as criadas por Lineu. Vamos ver agora as mais tradicionais. A espécie é a categoria taxonômica (táxon) mais básica. Assim, podemos dizer que ela é menos inclusiva que o gênero. O gênero, como pode possuir diferentes espécies, é mais abrangente que a espécie e, por isso, mais inclusivo. Acima de gênero, vamos ter categorias cada vez mais abrangentes/inclusivas. Gêneros parecidos são colocados em famílias. Famílias são colocadas em ordens. Ordens podem ser agrupadas em classes. Classes em filos. E filos em reinos. Vamos pegar o ser humano como exemplo. Ele é da espécie Homo sapiens. Do gênero Homo que, além do ser humano, possui algumas espécies extintas, como Homo erectus e Homo habilis. O gênero Homo está reunido com outros gêneros na família Hominidae. Outros gêneros presentes nessa família são Pan, Gorilla e Pongo. A família Hominidae está dentro da ordem Primates. A ordem Primates faz parte da classe Mammalia. Os mamíferos estão classificados dentro do filo Chordata. E esse filo faz parte do reino Animalia. Então, existem diferentes táxons, que são essas unidades taxonômicas. Homo é um táxon no nível de gênero. Mammalia é um táxon no nível de classe!

As categorias taxonômicas. Na imagem da esquerda, você tem a classificação do Puma concolor desde o nível de espécie até reino. Na imagem da direita, você pode observar a ideia dessas categorias como “caixas dentro de caixas”. Adaptado de Campbell et al., 2010.

Atualmente, acima da categoria de reinos, ainda existe a categoria domínio. Existem três: (1) Archaea, o qual agrupa organismos procariotos, entre os quais muitos que vivem em ambientes considerados extremos para os seres humanos, como locais muito quentes ou com muita pressão. Por causa disso são chamados de extremófilos; (2) Eukarya, que possui os organismos mais conhecidos pelas pessoas, como os do reino Animalia, com eucariotos multicelulares que ingerem outros organismos, reino Plantae, que engloba eucariotos multicelulares capazes de fazer fotossíntese, reino Fungi, com eucariontes, uni ou pluricelulares que absorvem nutrientes após fazer sua decomposição e reino Protista, esses menos conhecidos, com diversos organismos eucariotos unicelulares; (3) Bacteria, com os procariotos mais amplamente distribuídos e também divididos em vários reinos.

Os domínios da Vida: Archaea, Eukarya e Bacteria. Os reinos mais conhecidos do domínio Eukarya estão representados na imagem. O antigo reino Monera tem seus representantes agora divididos entre os domínios Archaea e Bacteria, todos procariontes. Adaptado de Campbell et al, 2010.

Essa novidade dos domínios está relacionada com a sistemática biológica moderna. Lineu viveu antes da teoria da evolução ser aceita. Todo o seu sistema foi criado pensando que as espécies eram criadas de forma independente. Assim, com as ideias evolutivas, mudanças muito grandes em nossa compreensão da natureza aconteceram, e isso influenciou também a forma como classificamos os seres vivos. Outro exemplo é o caso das aves. Você já deve ter escutado que aves são dinossauros. Mas qual o motivo pra isso?