As Muitas Idades Médias

Sabe aquela análise de Idade Média que vemos nos livros didáticos? Aquela bem clássica, com o senhor feudal, os cavaleiros e blá blá blá… Então, ela é, essencialmente, uma Idade Média europeia. A “Idade Média” na História é, acima de tudo, um recorte geográfico no tempo, com seus moldes de abordagem e funcionamento na historiografia, é um período em que se trata essencialmente da Europa. Porém, não houve somente uma Idade Média, e nem ela somente foi europeia.

Essa que conhecemos é, em geral, uma Idade Média muito francesa, que analisa relações que eram bem mais firmes na própria região da França, ou melhor, dos francos. Claro que é necessário fazer um recorte de análise, mesmo por questões de metodologia, porém o recorte não pode esconder o todo completamente, pois isso causa um problema a contexto e uma formação insuficiente sobre o assunto.

Existiram Idades Médias diferentes. No Japão por exemplo, um arquipélago distante na Ásia, a “Idade Média” se estendeu além da duração da Idade Média aqui no Ocidente; lá, durou até o século XIX, acabando somente com o advento da Era Meiji e do processo de industrialização. Esse período medieval japonês é chamado de Shogunato e foi caracterizado pela presença de vários pequenos líderes regionais, os senhores feudais, que tinham sob seu comando guerreiros, em geral de famílias nobres, chamados de samurais, que ocupavam posições importantes e exerciam atividade militar nos feudos.

Ao pensar sobre a Revolução Russa, por exemplo, muito mais próxima do contexto europeu que os japoneses, percebemos que o país teve suas relações medievais estendidas praticamente até 1917, quando o Czar, o “rei” daquele contexto, foi derrubado pelo povo. Só aí a economia essencialmente agrária e ligada à terra foi realmente repensada em seu modo de produção, modificando as relações sociais naquela região.

Viu só como é complicado pensar a Idade Média como uma coisinha engessada e simples? Foi um período muito extenso e complexo sim, porém, depois de entendermos a complexidade do assunto, vamos estudar melhor toda essa grande parte da História e, com uma visão não totalizadora, vamos quebrar tudo no ENEM e nos vestibulares. DÁ-LHE!

Europa, a Periferia do Mundo

Reduzir o estudo de um período à uma localidade, em si, já seria bem complicado. Esse problema se amplia aqui, justamente pela forma generalizadora com que a maioria dos historiadores trata do período. Será que nesse período, de 476 a 1453 (em sequência à queda do Império Romano do Ocidente e à queda do Império Bizantino), o mundo ficou coberto por um “manto de trevas”? Se há exemplos na própria Europa que mostram a inverdade dessa afirmação, imagine fora da Europa!

A Europa possuía uma população pequena e estava isolada das rotas comerciais, que passavam, em sua maioria, pelo Mediterrâneo Oriental. Nesse mundo, no mesmo período e paralelamente à Europa, havia um amplo afloramento comercial e intelectual, essencialmente muçulmano, em que a Matemática e a Astronomia estavam superdesenvolvidas, por exemplo. Aliás, foi desses conhecimentos que os europeus se valeram, no final da Idade Média, para iniciar as navegações que culminaram na colonização da América.