Leituras Adaptadas

Tão logo surge como arte, o cinema bebe das fontes da Literatura. Muitos críticos afirmam que o melhor do cinema ocorre quando os filmes são inspirados em obras literárias e quando diversos diretores inspiram-se em romances para criar seus filmes, afirmando que a qualidade de um texto é o que garante um filme memorável.

É claro que temos muitos filmes na história do Cinema que não foram baseados em textos literários e que, mesmo assim, tornaram-se obras-primas, como Cidadão Kane, de Orson Welles, e Pulp Fiction, de Quentin Tarantino. Aqui no Brasil, por exemplo, um filme que entrou para os Cem Melhores Filmes Brasileiros de Todos os Tempos foi Central do Brasil, de Walter Salles, que também não foi baseado em uma obra literária.

Na Literatura e nas Telas: os Valores da Sociedade

Existem duas grandes obras da literatura estadunidense que são um verdadeiro “soco no estômago” por nos fazerem questionar se os valores sob os quais vivemos estão realmente nos fazendo felizes, se as estruturas que nos regem não são demasiado autoritárias e, ainda, por que aqueles que se insurgem contra esses valores viram estranhos, alvos da raiva dos que têm medo da mudança. Obras que fazem com que nos perguntemos se as vidas que levamos – ou se as vidas que nos impõem como sendo as melhores opções de existência – são, de fato, as melhores opções.

Os romances Um Estranho no Ninho (1962), de Ken Kesey, e Revolutionary Road (1961), de Richard Yates, tocam na ferida do conformismo. E esses dois romances foram adaptados para o cinema, tornando-se filmes espetaculares.

Um Estranho no Ninho é um dos maiores clássicos do cinema estadunidense. Dirigido por Milos Forman, em 1975, a película deu o scar de melhor ator a Jack Nicholson, que está brilhante no filme.

Revolutionary Road é mais recente, de 2008, adaptado às telas pelo diretor Sam Mendes, conhecido pelo bombástico Beleza Americana. Revolutionary Road é uma obra forte e emocionalmente violenta, protagonizada por Leonardo DiCaprio e Kate Winslet.

Revolutionary Road é mais recente, de 2008, adaptado às telas pelo diretor Sam Mendes, conhecido pelo bombástico Beleza Americana. Revolutionary Road é uma obra forte e emocionalmente violenta, protagonizada por Leonardo DiCaprio e Kate Winslet.

O que aproxima Um Estranho no Ninho de Revolutionary Road é a época em que os romances são ambientados. Mesmo que o segundo filme seja de 2008, o diretor Sam Mendes manteve o cenário do filme alocado em Estamos, portanto, nos conformados anos 50 dos Estados Unidos. A década mais forte do American Way of Life.

Lembremos que, após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos saíram vitoriosos do conflito e foi nesse momento que a nação tornou-se a grande potência que é hoje. Devido a isso, o potencial de consumo da população é elevado e um estilo de vida calcado no consumismo torna-se o sinônimo da felicidade.

Tudo o que um estadunidense precisava para ser feliz era constituir uma família, ter um linda casa com um carro na garagem, um bom emprego e, é claro, uma televisão! Isso se tornou um padrão, um imperativo, quase que a rota única para a felicidade. Mas, e se esse caminho, na verdade, não trouxer o verdadeiro contentamento, aquilo que nos faz sentir vivos?

Em Revolutionary Road, os personagens de Frank Wheeler e April Wheeler se conhecem na juventude. Ambos são inquietos e desejam tudo, menos uma vida convencional. Ela é uma aspirante a atriz; ele é um jovem que sente a vida com todas as forças. No entanto, eles se tornam um casal que vive em uma casa de dois andares com um carro na garagem e uma vida sem graça. Frank detesta o emprego e April detesta a vida de dona de casa, uma vez que sua carreira de atriz não deslanchou.

Até que, em um determinado momento, April tem um insight. Eles estão infelizes onde estão! Por que não mudar? Quem fez aquelas regras nas quais eles devem continuar vivendo do jeito que estão? E desse insight surge o desejo de mudança. É interessante observar a cena na qual eles contam aos amigos vizinhos da casa ao lado que vão se mudar para Paris para ter tempo e descobrir o que querem de suas vidas. A reação do casal é a de quem não está olhando para dois amigos, mas para dois monstros irreconhecíveis. É interessante observar como a decisão de mudança dos Wheeler faz com que todos ao redor fiquem desconfortáveis. Por quê?

O desconforto com a mudança e a incapacidade de questionar o que está posto também aparece em Um Estranho no Ninho. A obra de Ken Kessey e o filme de Milos Forman contam a história de McMurphy, um homem de 38 anos que deixa a prisão para passar uma temporada num hospício e, assim, fugir do ambiente e dos trabalhos do presídio onde estava. McMurphy é um homem perspicaz e questionador das regras; logo em uma das primeiras cenas do filme, ele participa de uma sessão de terapia em grupo.

Interessado em assistir a um jogo de um importante campeonato, ele propõe que a televisão seja ligada e que a terapia sofra uma alteração de horário para que todos possam ver o jogo e uma votação é realizada para que a decisão seja democrática. É interessante notar que a maior parte dos pacientes do grupo está interessada em assistir ao jogo, no entanto, eles estão tão acostumados com a rotina e a seguir as duras regras da instituição que não levantam a mão.

A narrativa de Um Estranho no Ninho – tanto o filme quanto o livro – é completamente ambientada dentro de uma instituição psiquiátrica, mas podemos entender a obra como uma metáfora de nossa sociedade. É claro que precisamos de regras para viver em grupo, o problema é quando ficamos tão acostumados com regras sobre o que devemos fazer que as obedecemos sem questionar.

As regras da instituição psiquiátricas são duras e os pacientes não as questionam. Quando McMurphy chega ao local, a sua personalidade irreverente e rebelde gera alterações no comportamento dos colegas, que se tornam mais críticos. Obviamente, isso não é visto com bons olhos e McMurphy passa a ser o inimigo número 1 da enfermeira Ratched, a representação do autoritarismo, alguém que acredita que suas ordens devem ser obedecidas.

Questionando as instituições que regem nossa sociedade, Um Estranho no Ninho, após 40 anos de seu lançamento, ainda hoje é discutido e visto por novas gerações.

As duas adaptações fílmicas aqui citadas são casos de obras cinematográficas que, de alguma forma, acabaram superando suas bases, ou seja, os romances nos quais foram inspirados. No entanto, é interessante fazer o exercício de assistir aos filmes e, também, de ler os livros.

Se vocês ainda não assistiram a esses filmes, corram! São adaptações imperdíveis!