Introdução à Sociologia

Por que estudar Sociologia?

Você já parou para pensar nas motivações por trás dos seus pensamentos ou de suas ações? Será que suas vontades e suas opiniões são “apenas” uma preferência pessoal? As roupas que você costuma usar, as músicas que você costuma ouvir e os lugares que você costuma frequentar são escolhas suas? A vontade de tentar compreender o que motiva as pessoas a agirem de certa maneira em grupo, de entender como cada cultura se organiza e de analisar melhores formas de gestão de uma sociedade podem ser observadas desde os primeiros registros escritos encontrados na história até os dias de hoje, nos textões da timeline do seu Facebook. Sociologia é a ciência que estuda a sociedade, ou melhor, que estuda as relações sociais entre os indivíduos entre si, com os grupos com os quais convivem e com a sociedade como um todo.

Um passarinho joão-de-barro já nasce sabendo fazer sua casa de barro, o cachorro já nasce sabendo latir, mas o ser humano, se não for ensinado, não saberá falar ou se comportar como outros seres humanos. O ser humano é o único animal que precisa aprender a ser “humano”. Ninguém “nasce sabendo” nada! Até a relação da mãe e do bebê vai se construindo ao longo da vida. Cada cultura tem seus rituais e práticas para lidar com fenômenos que parecem ser “naturais”, como, por exemplo, o nascimento de um bebê. O cuidado com a mulher grávida, a posição mais adequada para o parto, cuidados com o recém-nascido, definições sobre o papel do pai e seus deveres mudam de uma cultura para a outra.

Esse processo de aprender a viver em sociedade, que chamamos de socialização, às vezes parece algo muito abstrato, mas é, na verdade, algo físico, que fica inscrito no nosso corpo, no nosso modo de ser e agir no mundo, de pensar a nós mesmos e de nos relacionarmos com as outras pessoas. Quando você aprende a falar, você treina o seu aparelho vocal para emitir determinados sons em detrimento de outros. Se você já tentou aprender uma língua diferente, sabe como pode ser difícil aprender a emitir sons diferentes dos que são usados na língua portuguesa.

Não é só porque temos dificuldade de emitir um som diferente que iremos dizer que aprender uma língua estrangeira é um processo anti-natural. Então, por que em relação a algumas outras coisas, como a nossa identidade de gênero ou expressão da nossa sexualidade, as pessoas costumam ter tanta dificuldade para perceber que se trata de algo cultural e socialmente construído? Bom, a sociologia responderia que é porque o homo sapiens é sempre homo socius. É como se a cultura fosse parte da nossa natureza. Por isso, tendemos a naturalizar processos que são, na verdade, socialmente construídos. A sociologia busca reconstruir os caminhos dessa naturalização, especialmente analisando como o senso comum estrutura a realidade. Questionar o quão “naturais” são os nossos comportamentos é um dos objetivos da sociologia!

Sociologia, Senso Comum e Sabedoria Tradicional

A gente está sempre pensando e teorizando sobre o mundo ao nosso redor, mas então, seria isso sociologia? Não! O impulso de compreender o mundo motiva o desenvolvimento do pensamento sociológico, mas não basta por si só. A esse pensamento imediato, sem reflexão, ingênuo, chamamos de senso comum. São pensamentos, conceitos, teorias, hábitos que estão imersos, enraizados, na nossa cultura e que reproduzimos sem nem percebermos.

O problema é que esse conhecimento do senso comum, construído a partir da experiência de quem fala, pode ter implicações ideológicas, estar impregnado de preconceitos ou de generalizações. Reproduzir esses pensamentos e ações contribui para a perpetuação de uma realidade que nem sempre condiz com o que acreditamos, ou nem sempre é a melhor para todas as pessoas. É muito importante nos darmos conta de como a realidade se constrói socialmente a partir do senso comum, pois assim podemos refletir sobre ela e modificá-la. O senso comum não é científico e é um grande obstáculo a ser superado para fazermos sociologia, mas ele é essencial para a nossa vida prática. Imagine se você tivesse que parar e analisar cientificamente cada ação que você for praticar? Seria impossível viver! Mesmo alguém que atue no campo da sociologia, ainda assim, terá o seu referencial de pensamentos a partir do senso comum. O desafio da sociologia é reconstruir como esses pensamentos foram socialmente construídos, para assim podermos compreender melhor a realidade analisada. O legal disso é que, estudando sociologia, a cada dia nos damos conta de nossas ações e refletimos sobre o porquê de estarmos agindo de uma forma ou de outra!

Outro tipo de conhecimento que é diferente do saber científico e do senso comum é a sabedoria tradicional. A sabedoria tradicional é formada por conjuntos de saberes construídos a partir da experiência de populações que vivem em contato com a natureza ou que teriam seus saberes construídos na experiência com ela e comprovados geração após geração. A nossa cultura ocidental privilegia o saber científico, mas outras culturas desenvolveram outras maneiras de apreender o mundo em que vivem – é o caso da sabedoria dos povos indígenas, por exemplo. Um indígena sabe reconhecer a idade das árvores pelo seu caule ou cor das folhas e consegue distinguir milhares de tons de verde que a gente nem sonha em enxergar. Sabemos bem que o “homem branco” não levou da Amazônia apenas as raízes e ervas para fabricar seus remédios ocidentais, levou também a sabedoria dos pajés indígenas e das benzedeiras tradicionais sobre o poder de cura de cada planta.

A sociologia difere dessas outras formas de conhecimento, pois é feita dentro dos parâmetros que chamamos de “científicos”, ou seja, segue metodologias de pesquisa específicas da área e se baseia em conceitos e teorias construídos a partir de pesquisas empíricas no mundo real. Mas é sempre bom lembrarmos que a ciência não é a única forma de produção de conhecimento sobre a realidade e que o conhecimento científico está longe de ser a “verdade sobre o mundo”! Além disso, a ciência não está isolada de outros saberes: muitos remédios foram elaborados a partir da sabedoria popular, por exemplo.