Gêneros e Tipos Textuais

Para começar, vamos observar os textos abaixo.

TEXTO I

Poema tirado de uma notícia de jornal

(Manuel Bandeira)

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número

Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro

Bebeu

Cantou

Dançou

Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

BANDEIRA, M. Estrela da vida inteira: poesias reunidas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980.

TEXTO II

Temos, nos textos, dois gêneros distintos. O primeiro texto pertence ao âmbito artístico, à literatura, especificamente, o gênero lírico – trata-se de um poema. O segundo texto pertence aos textos de circulação prosaica, ou seja, pertence ao dia a dia, à comunicação diária: trata-se de uma notícia.

Em alguma medida, ambos os textos – ainda que por meio de gêneros distintos – tematizam algo semelhante: a morte de alguém tendo em vista o uso do álcool. O poema de Manuel Bandeira, inclusive, brinca com esse aspecto, o que podemos observar no título escolhido – “Poema tirado de uma notícia de jornal”. Outra característica importante é observarmos que o poema utiliza o tipo textual narrativo – afinal, seleciona verbos para narrar o destino de João Romão. Já o segundo texto apresenta dados e informações sobre o fato em si, tendo apenas como finalidade informar ao leitor um fato ocorrido. Percebeu a diferença? Ambos têm funções e objetivos diferentes e isso implica na forma que o texto vai assumir para ser recebido pelo leitor.

Vamos olhar, primeiramente, para a diferença entre o formato dos textos, ou seja, a forma como as palavras, em cada caso, são distribuídas no papel de modo diferente. Isso se modifica, pois cada texto pertence a um gênero diferente! Assim, nota-se que os gêneros textuais são uma forma específica, determinada a partir dos objetivos comunicacionais implicados nela. Tranquilo, não?! Os gêneros textuais estão no dia a dia e a cada dia um novo gênero pode surgir!

Cada gênero, portanto, apresenta características específicas. Uma receita, por exemplo, prevê o ato de ensinar algo – em geral, algo a ser cozinhado; uma notícia de jornal (este, o jornal, é o veículo de comunicação) apresenta uma síntese de um fato ocorrido há pouco tempo; uma carta, por sua vez, é escrita por alguém tendo em vista um destinatário específico, íntimo ou não. Isso tudo enfatiza a questão do objetivo da escrita, bem como uma possibilidade de leitura desse texto!

GÊNEROS TEXTUAIS E INTERAÇÃO

Os gêneros textuais possuem uma forma preestabelecida, tendo em vista, especialmente, os objetivos da comunicação ou interação proposta.

Assim, a disposição das palavras no papel também auxilia a definir o gênero (nesse caso, podemos lembrar da poesia e do romance, ou seja, do verso e da prosa, gêneros literários), bem como o perfil de linguagem selecionado – mais formal ou mais informal. Tudo depende, como dissemos, do processo de comunicação.

Tipo Textual

Diferentemente dos gêneros textuais, que são incontáveis, os tipos textuais são apenas cinco: argumentativo, descritivo, injuntivo, narrativo e expositivo, sendo que eles são separados basicamente de acordo com a suas propriedades linguísticas (vocabulário, construção frasal, tempo verbal etc). Mas, nada de desespero! É bem fácil compreender cada um deles; o mais importante é saber que os textos, por vezes, apresentam mais de um tipo textual, mas que um sempre se sobrepõe aos outros.

Vamos às explicações:

Por que essas definições – tanto de gênero quanto de tipo textuais – são importantes? Porque todo texto possui um autor real, externo ao texto, que se transfigura em um “eu” linguístico (o eu do texto), responsável pela organização textual. Sendo assim, precisamos diferenciar, sempre, o escritor, feito de carne e osso, da construção textual, do “eu” que é um “lugar” linguístico. Essa separação é muito importante, principalmente, para os textos literários.

Neste jogo da escrita, estão envolvidos o autor, o texto e o leitor. O ato de ler é, justamente, uma interação entre essas três instâncias, como vimos. Sendo assim, o autor, ao criar sua produção textual, avalia quais são seus objetivos, escolhe um gênero textual e tece sua escrita. O escritor, portanto, possui um objetivo, uma intenção, ao criar um texto. Essa intenção é transformada em materialidade linguística, ou seja, um texto, que será recepcionado pelo leitor, cuja tarefa será dialogar com as ideias ali expressas para, em seguida, criar sentidos – os quais não necessariamente serão iguais aos sentidos projetados pelo autor.

A intenção do autor é importante para que ele organize suas ideias antes de escrevê-las. Para o leitor será importante porque, assim, ele lerá um texto coerente e organizado para, com maior facilidade, interagir e compor leituras. Conhecer as marcas estruturais dos gêneros e as definições de tipologia, portanto, apenas auxilia o processo de leitura e interpretação!

As Relações entre Tipo Textual e Gênero Textual

Como já visto, os gêneros textuais em muitos sentidos se relacionam com os tipos textuais. Assim, cabe observar de forma prática tanto as marcas textuais e linguísticas (tipo textual) quanto a própria forma do texto (gênero) no processo de construção textual. Para isso, observe essa tabela:

Note que cada tipo textual, em geral, se relaciona com um gênero textual específico, não é? Mas não se engane! Não existem correspondências exatas entre gênero e tipo textual. Muito pelo contrário, o que há é uma relação de predominância de determinados tipos textuais em determinados gêneros textuais.

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