Gêneros Literários

De acordo com uma definição clássica, os gêneros literários seriam o épico, o lírico e o dramático. O gênero épico daria conta de narrar os feitos dos heróis, isto é, é narrada uma história com personagens dentro de um espaço-tempo específico. São exemplos de epopéias a Ilíada e a Odisséia. O gênero lírico é aquele em que as emoções são especialmente expressadas e para o qual a sonoridade é parte crucial do texto. Geralmente, esses textos eram declamados juntamente com algum instrumento (a Lira, por exemplo). Já o gênero dramático era construído visando a representação. Assim, a narração ficaria a critério das próprias personagens, por meio de diálogos, principalmente.

No entanto, atualmente, esses gêneros já se misturaram, e, portanto, se modificaram muito, gerando novos gêneros híbridos. Por exemplo, do gênero épico, hoje temos o romance, o conto, a novela, a fábula, entre outros. Do gênero lírico, o poema em suas variadas formas: Ode, soneto, elegia, etc. Por fim, do gênero dramático: auto, tragédia, comédia, tragicomédia. Vamos a alguns exemplos:

Romance

Trecho de Azul Corvo

“Aquela mata cerrada que barrava até a luz do sol. Uma vez Chico sonhou que entrava na mata e era um breu, não se enxergava nada. Em pleno dia. Mas a mata é a nossa segunda mãe! E no meio da mata podemos abraçar e beijar alguém de quem gostamos, alguém de quem achamos que gostamos muito, mesmo, e cantar canções mentalmente para não correr o risco de desafinar. E depois até cantar vocalmente, com a garganta e os desafinos, um trechinho
dessa música. Só um trechinho. Tirar a roupa e revelar um corpo fraco e forte ao mesmo tempo. Feio e bonito. Muito magro. Vezes dois. Um monte de picadas de insetos. Calos. Cicatrizes. Aconchego. Desejo. Tudo isso. Depois colocar as roupas de novo, pegar a lenha nas costas e levar para onde ela devia ser levada. Como se fossem armas. Como se fosse um companheiro ferido.”

LISBOA, Adriana. Azul Corvo. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2014.

O gênero romance é uma narrativa ficcional longa e em prosa. Diz-se desse gênero ser mais longo tendo em vista a constituição narrativa que, diferentemente do conto, por exemplo, apresenta diversos núcleos narrativos e, em geral, um enredo mais complexo (pelo maior número de personagens e ações). No entanto, o romance é um dos gêneros mais flexíveis e pressupõe diversas possibilidades narrativas (podendo até mesmo ter apenas uma personagem em fluxo de consciência, por exemplo. Esse é o caso de “A paixão segundo G.H“, de Clarice Lispector). Já em Azul Corvo (2014), a narrativa se dá por meio de flashbacks, sendo que Vanja, a personagem principal e narradora, busca compreender sua história e seu passado juntamente à história e ao passado do Brasil, retomando, sobretudo, o período da ditadura militar brasileira. No trecho, ele narra os sentimentos e sensações de Chico, codinome de Fernando, seu padrasto, militante político contra o regime, enquanto fazia treinamento na floresta. Nesse exemplo, percebemos justamente que, embora a narrativa seja sobre Vanja, diversos outros fios narrativos perpassam a sua história.

Conto

Tia Marga

“A verdade é que eu tinha casado sim, por oito anos, com a tereza, agora estava há dois anos sozinha… Meu pai achava que não era casamento de verdade, que era uma fase – dos 18 aos 40, baita fase. Minha mãe fingia que não sabia, que não ouvia, que não enxergava nada e sempre, sempre me perguntava quando eu ia casar”

POLESSO, Natalia Borges. Tia Marga. Porto Alegre: Não, 2015.

O gênero conto, por se tratar também de um texto literário, é ficcional e, como já dito, mais curto do que um romance, pois apresenta, geralmente, o desenvolvimento de poucas cenas e o foco, também em geral, recai sobre uma personagem (ou poucas personagens). No entanto, sua forma pode variar muito, assim como no romance. Um exemplo de conto é o citado anteriormente, “Tia Marga”, do livro Amora, em que a narrativa recai sobre a experiência familiar da narradora enquanto mulher lésbica, sendo que o evento principal do conto é o velório da purgante tia Marga. Assim, é possível perceber que além de um texto mais curto, com poucas personagens, há também um espaço e um tempo limitado em que essas ações ocorrem.

Crônica

Chacrinha

(Clarice Lispector)

De tanto falarem em Chacrinha, liguei a televisão para seu programa que me pareceu durar mais que uma hora.

E fiquei pasma. Dizem-me que esse programa é atualmente o mais popular. Mas como? O homem tem qualquer coisa de doido, e estou usando a palavra doido no seu verdadeiro sentido. O auditório também cheio. É um programa de calouros, pelo menos o que eu vi. Ocupa a chamada hora nobre da televisão. O homem se veste com roupas loucas, o calouro apresenta o seu número e, se não agrada, a buzina do Chacrinha funciona, despedindo-o. Além do mais, Chacrinha tem algo de sádico: sente-se o prazer que tem em usar a buzina. E suas gracinhas se repetem a todo o instante — falta-lhe imaginação ou ele é obcecado.

E os calouros? Como é deprimente. São de todas as idades. E em todas as idades vê-se a ânsia de aparecer, de se mostrar, de se tornar famoso, mesmo à custa do ridículo ou da humilhação. Vêm velhos até de setenta anos. Com exceções, os calouros são de origem humilde, têm ar de subnutridos. E o auditório aplaude. Há prêmios em dinheiro para os que acertarem através de cartas o número de buzinadas que Chacrinha dará; pelo menos foi assim no programa que vi. Será pela possibilidade da sorte de ganhar dinheiro, como em loteria, que o programa tem tal popularidade? Ou será por pobreza de espírito de nosso povo? Ou será que os telespectadores têm em si um pouco de sadismo que se compraz no sadismo de Chacrinha?

Não entendo. Nossa televisão, com exceções, é pobre, além de superlotada de anúncios. Mas Chacrinha foi demais. Simplesmente não entendi o fenômeno. E fiquei triste, decepcionada: eu quereria um povo mais exigente.”

LISPECTOR, Clarice. Chacrinha. Disponível em: http://eduqueinforme.blogspot.com/2010/03/chacrinha-clarice-lispector.html Data de acesso: 18/03/2019.

O gênero crônica é provavelmente o mais híbrido dentre os gêneros, visto que nasce no jornalismo, mas, em geral, apresenta um linguagem literária. Assim, tem como uma das suas principais características a fixação temporal, isto é, um crônica remete certamente a um tempo específico. Nesso caso da crônica de Clarice Lispector, o tempo apresentado é a época da estréia do Programa do Chacrinha (por volta de 1967), assim, fica marcada a necessidade de o leitor conhecer o contexto da época para, minimamente, identificar o assunto ao qual a autora se refere. É interessante notar, sobre a crônica ainda, que as produzidas hoje são, certamente, uma tentativa de compreensão/reflexão sobre o momento presente a partir de uma linguagem que mistura simplicidade, cotidiano e literariedade.

Poesia

Quadrilha

(Carlos Drummond de Andrade)

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava
Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos,
Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre,
Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história

ANDRADE, Carlos Drummond. Quadrilha.
Disponível em: https://www.escritas.org/pt/t/1514/quadrilha
Data de acesso: 18/03/2019.

A poesia é um gênero literário que muito se alterou ao longo do tempo, visto que em seu princípio era marcado pela fixação métrica e hoje apresenta o verso livre também como uma possibilidade formal. No caso do poema de Drummond, nos é apresentada uma estrutura narrativa: é a história de diversas pessoas que não conseguem se encontrar amorosamente. No entanto, o potencial significativo desse poema deve extrapolar o “enredo” para ser lido no âmbito mais abstrato, isto é, como uma impossibilidade de estar satisfeito com as relações que estabelecemos na vida, esse eterno desencontro. Assim, ao conhecermos o gênero poesia, somos levados a não interpretar o poema literalmente (visto que se trata do uso simbólico da linguagem), mas a ampliarmos os nossos horizontes interpretativos.

Para saber mais, veja também: