Fundamentos da Idade Média – Poder e Sociedade

Na Roma Clássica, é possível dizer que existia uma relativa mobilidade social e ela se dava justamente na forte relação escravagista da cultura do período. Essencialmente, uma mobilidade clássica do período era um escravizado tornar-se livre, e esse era um grande quesito de diferenciação social. Porém, algumas medidas foram tomadas e, assim como vinculou-se camponeses à terra no sistema de colonato, buscou-se agregar artesãos e artífices às corporações de ofício, conhecidas como collegia, em que as pessoas pertencentes eram submetidas igualmente ao controle do Estado, tanto para exercer o próprio controle social, quanto para efetuar de forma plena a cobrança de impostos, inclusive sobre os serviços e transações comerciais. Era uma espécie de regulação do mercado e da produção.

Dois grandes blocos sociais surgiram nessa crise das relações sociais, extinguindo-se a classe média. Existia apenas a aristocracia fundiária, com seu poderio embasado pela burocracia do Estado, e a população dependente socialmente dessas designações sociais, obrigando-se a encaixar-se para sobreviver. Alguns historiadores, como Ferdinand Lot, chegam a falar em regime de castas nesse período, uma visão um pouco exagerada, porém marcante para entendermos como se procederam as relações sociais.

Tamanhas eram as diferenças sociais, que foram criadas duas moedas para a sociedade romana, uma padrão-ouro para as transações feitas pela elite, e outra padrão-cobre para os mais pobres. Importante citar que as invasões germânicas não quebraram essa relação; pelo contrário, as intensificaram. As aristocracias regionalistas mantiveram seu poderio e forma de dominação com as posições mais importantes tomadas por germânicos, mas, em essência, a base social foi a mesma. De acordo com Hilário Franco Júnior:

“Os germânicos que expropriavam romanos aristocratas, ao subir ao poder, apenas colocavam seus escravos, ou homens livres de suas tribos como rendeiros ou pequenos proprietários dos loteamentos ou algum tipo de dependência social, criando lideranças locais”.

Fragmentação do Poder Central

Se a sociedade romana se ruralizou e começou a se organizar em pequenas e distantes comunidades autônomas, essa autossuficiência dos latifúndios criou, em certa medida, uma independência dessas regionalidades em relação ao Estado central de Roma. O Império foi perdendo seu poder de atuação sobre as localidades, cada vez mais distantes e difíceis de serem atingidas.

Uma medida tomada e que a longo prazo colaborou ainda mais para aumentar essas distâncias foi a atribuição aos senhores de cobrar os impostos de seus colonus. Com isso, o Estado se portava como distante, ausente e menos influente. Havia uma frágil unidade política em Roma e, com o comércio em bancarrota, os pagamentos começaram a ser modificados, do uso de moeda e ouro para o pagamento em terras – medidas que inclusive foram adotadas pelos povos germânicos que posteriormente invadiram Roma.

Havia um problema evidente em pagar com terras os seus subordinados: é que, cada vez que você dá a alguém, você tira do seu próprio território, perdendo seu próprio poder. Cada vez mais dependentes, os líderes, em troca de favores, iam dividindo seus territórios, enfraquecendo-se e fragmentando o poder político de toda a região.

Privatização da Defesa

A autossuficiência dos latifúndios criou, em certa medida, uma independência dessas regionalidades em relação ao Estado central de Roma. A resistência aos invasores era complicada, o exército romano geralmente estava disperso pelas fronteiras, longe dos interiores; se próximo, estaria desestabilizado e fraco.

A Europa se encheu de fortificações e castelos, um método de proteção aos invasores. Os mais ricos eram aproximados pelos líderes regionais para, em troca de terras, oferecer armamento e efetivo para proteção das localidades. Daí o surgimento da cavalaria.