Desigualdade do Trabalho

Agora já não é mais novidade para você que o capitalismo se constituiu a partir de relações de exploração de uma classe sobre a outra, e que tanto os Estados sociais quanto os neoliberais das sociedades capitalistas se consolidaram para solucionar as crises do próprio sistema capitalista. É a dinâmica de luta entre duas classes principais que nos permite entender as desigualdades que nos atingem até hoje. Essas desigualdades se expressam na apropriação da riqueza (renda e propriedade privada); no poder político concentrado geralmente nas mãos dos que possuem grande poder econômico; no acesso desigual à educação, ao conhecimento e a outros bens culturais. Enfim, a desigualdade é constitutiva da sociedade capitalista, uma vez que o seu principal fundamento é a concentração das riquezas geradas pela sociedade nas mãos de elites econômicas, financeiras e políticas.

No século XX, os avanços científicos e tecnológicos transformaram a produção mundial, o que poderia ter diminuído as desigualdades sociais, mas, na realidade, não aconteceu. A fome no mundo não parou de crescer. Certamente nos espantamos ao saber que, em 2012, mais de 900 milhões de pessoas foram vítimas da fome crônica. A falta de alimentos e a desnutrição foram responsáveis por mais da metade das mortes de crianças menores de cinco anos, apesar de existirem no mundo os recursos suficientes para satisfazer as necessidades de toda a humanidade.

Mas as desigualdades não se manifestam apenas no acesso ao alimento, embora elas sejam mais fáceis de serem percebidas em situações extremas de pobreza e miséria. No Brasil, por exemplo, muitos estudos mostram que 1% dos mais ricos detém 27% de toda riqueza nacional. No âmbito da política, sabemos, por exemplo, que grandes empresários e proprietários de terras possuem muita força nas decisões do governo sobre políticas de direitos territoriais ou sobre qualquer medida que aponte para a reforma agrária.

Além disso, as desigualdades envolvem questões de gênero, de raça e cor da pele. Para se ter uma ideia, em 2005, a Organização das Nações Unidas (ONU) publicou um relatório, argumentando que: metade da população feminina não tem emprego; dois terços dos analfabetos no mundo são mulheres; no mercado de trabalho, as mulheres ganham salários menores que os homens, mesmo exercendo as mesmas funções e possuindo nível educacional superior; a violência, principalmente sexual, atinge uma a cada três mulheres no mundo. O recorte racial também é assustador. De acordo com o Mapa da Violência no Brasil (2014), ao longo dos últimos 10 anos, a taxa de homicídios de jovens negros teve um aumento de 38% no Brasil e, só em 2014, do total dos 30 mil homicídios de jovens, 23 mil foram perpetrados contra pessoas negras. Além de vivenciarem cotidianamente um processo de criminalização e extermínio, as negras e negros brasileiros são de longe os mais prejudicados quando o assunto é acesso à cidadania e aos espaços de poder e decisão política.

O sociólogo Max Weber defende que as desigualdades na sociedade capitalista são de ordem econômica (posses, bens e renda), social (prestígio de certos grupos em relação à profissão ou estilo de vida) e política (poder nas relações de dominação). O interessante de seu pensamento é que as pessoas podem ter posses e rendas, mas não ter nenhum poder político ou estilo de vida prestigioso. Outras podem ter poder nas relações de dominação, mas podem não possuir uma renda equivalente a essa posição. Outras, ainda, podem ter prestígio, como os cientistas e pesquisadores, mas não possuírem nenhuma renda. Com estes argumentos, Weber nos ajuda a entender que uma pessoa com renda e prestígio pode encontrar barreiras específicas se ela for negra, mulher, homossexual ou qualquer outra categoria considerada inferior dentro das hierarquias sociais, sexuais e raciais.

Para além dessas questões, também temos que olhar para os fenômenos que nos mostram uma situação bem sombria para os trabalhadores de hoje. A automação (funcionamento por dispositivos mecânicos) que elimina o trabalhador do controle manual, exige que as pessoas estejam disponíveis para se adaptarem às mais variadas funções, caso contrário são facilmente despedidas. Essa situação cria uma incerteza e uma insegurança enorme, o que caracteriza o que chamamos de flexibilização nas formas de trabalho, quando o empregado regular, com contrato e carteira assinada, é substituído pelo trabalho autônomo, temporário, por curto prazo e terceirizado, provocando rotatividade da força de trabalho, ou seja, de pessoas que entram e saem de um mercado de trabalho altamente precário e que não garante nenhum direito.

Estaríamos diante de uma nova realidade na qual o trabalho já não significa nenhuma segurança. Mesmo os que possuem algum emprego estão sendo ameaçados ou invalidados por vários motivos, por terem idade avançada ou não terem qualificação profissional; pela constância do desemprego, só existem vagas em trabalhos instáveis e de curta duração; pela escassez de postos de trabalho; pela exigência de qualificação para um emprego, o que cria situações sem solução, exigindo experiências de jovens que, se não tiverem chance, jamais terão essa experiência. Jovens ficam pulando de estágio em estágio, de bolsa em bolsa, sem esperanças de fixação em um posto de trabalho que também garanta direitos sociais.

Apesar de tudo isso, existem ideologias que defendem a ideia de que, se a principal marca do capitalismo é a desigualdade, também é preciso considerar a mobilidade social. A ideia de mobilidade social se explica basicamente pela possibilidade que um indivíduo possui de “vencer na vida”. O problema é que as barreiras para que uma pessoa consiga mudar a sua condição social não são abertamente declaradas, mas estão escondidas nas interações sociais. Os dados que já mostramos acima revelam a ilusão das facilidades da mobilidade social. Por exemplo, como é possível que todas as pessoas possam ascender socialmente, se as mulheres com o mesmo nível de escolaridade ganham menos que os homens? Mesmo assim, é comum assistirmos nos noticiários as histórias de pessoas em situação de rua que entraram na universidade, de filhos de catadores de materiais recicláveis que passaram em concursos públicos ou de empregadas domésticas que por anos juntaram dinheiro e conseguiram comprar uma casa própria. Esses exemplos, glorificados pela mídia, espalham a ideia de que todo o indivíduo competente pode vencer na vida através de uma dedicação que só depende dele, da sua vontade e do seu empenho próprio, pois todos teriam a mesma oportunidade. Esse discurso esconde o fato de que a desigualdade é reproduzida cotidianamente e também está presente nas classificações históricas e sociais que compreendem os negros, as mulheres, os imigrantes, os homossexuais, etc., como seres inferiores e naturalmente desqualificados para exercer certas atividades e ocupar espaços de poder.

Desde o início do capítulo, entramos em contato fictício com uma família constituída por mãe e filhos, que pedia comida na porta de um restaurante luxuoso. E agora, depois de tudo o que aprendemos, como fica a discussão? As oportunidades existem para eles? Eles estão nessa situação porque não se empenharam em mudar de vida? Ou eles são a expressão das contradições inerentes à sociedade capitalista, desigual e repleta de privilégios aos detentores das riquezas do mundo? Aliás, nem sabemos se aquela família era composta por pessoas negras, o que explicaria com mais força o motivo pelo qual aquela mãe não encontrou saída a não ser pedir comida nas ruas, enquanto, do outro lado da cidade, em bairros nobres, muitas pessoas nascem, crescem e morrem numa condição repleta de privilégios. Definitivamente, o sol não nasce para todos.

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