Descartes

Penso, Logo Existo

Descartes foi um intelectual que se tornou importante tanto na matemática, por unir a álgebra e a geometria criando o plano cartesiano, quanto na filosofia, por sua contribuição na Metafísica e na Teoria do Conhecimento. A relação entre o pensamento do Descartes matemático e o pensamento do Descartes filósofo é muito grande e decisiva para suas teses.

Sendo um estudioso da matemática, isto é, de uma ciência não empírica e que fornece conhecimentos tão puros e independente dos sentidos, Descartes seria o grande expoente da tradição racionalista. Esta tradição apresenta o conhecimento como algo restrito à razão humana, ou seja: conhecimento não é aquilo que obtemos dos sentidos, que podem nos enganar, mas aquilo que obtemos puramente do intelecto. Mas como ele defende essa posição?

Sua principal obra filosófica pode lembrar um pouco a atitude de Sócrates, com a famosa frase “só sei que nada sei”. O que Descartes faz é observar que muita das coisas que ele sempre julgou saber se assentam sobre um “conhecimento” que não é muito garantido. Ora, quem nunca descobriu que estava enganado depois de ter dito, com muita convicção, que tinha 100% de certeza?

A Coisa Pensante

Descartes resolve, então, fundar sua Filosofia na dúvida total. Decidiu duvidar de tudo, inclusive da própria existência. Observe que esta atitude pode parecer um pouco insensata, mas não imagine Descartes como um sujeito biruta que não sabia nem se ele mesmo existia ou não. O problema de Descartes era muito sério e sua solução era ambiciosa. É claro que ele existia e sabia muito bem disso. Sua busca era por formular os princípios de uma ciência que fosse segura e, portanto, ele precisava perguntar: “como eu garanto as coisas que eu sei?”. Entre as coisas que ele supostamente sabia, a primeira de todas foi a de que ele existia, afinal, ele estava ali se debatendo com aquela dúvida, com aqueles pensamentos, e, se ele pensa, então obviamente ele existe, porque pensar é uma ação e uma ação só pode ser praticada por algo que existe.

Mas Descartes não se iludia muito fácil. Logo depois de constatar que uma coisa que pensa precisa necessariamente existir, ele observa que só o que precisa necessariamente existir é a “mente pensante”, ou seja, a existência do seu corpo não estava, ainda, garantida. O corpo, sua noção de espaço e das outras coisas que existem no mundo, dependia dos sentidos, que podiam muito bem ser enganados por um gênio maligno pregando peças numa mente menos poderosa. O mundo físico que experimentamos poderia ser ilusão da mente pensante. A mente que pensa precisa necessariamente existir, mas nada garante que ela não se engane, que não tome por verdadeiro coisas que sejam falsas.

Mas veja que a frase “penso, logo existo” é um daqueles casos em que o sentido e a verdade coincidem, uma vez que é impossível entender o que uma pessoa quer dizer quando fala, por exemplo, “penso, mas não existo”. É claro que, para isso, a única qualidade que podemos assumir como segura da coisa que pensa é o fato de que ela pensa, nada mais.

Note que a primeira certeza que Descartes admite não é a certeza de alguma coisa que ele tenha aprendido por meio de seus sentidos. Sua primeira certeza é racional.

A Coisa Corpórea

Se, com apenas o exercício da razão pura, Descartes consegue provar que ele existe como um ser pensante, ele precisa agora provar que também existe um mundo físico e que tudo aquilo que se passa ao nosso redor não é uma brincadeira de mau-gosto de um Deus maligno que nos ilude com imagens enganadoras. É neste caso em particular que Deus cumpre um papel fundamental na teoria de Descartes.

A coisa que pensa, a mente, tem já nela a ideia de um ser perfeito, onisciente e onipotente, criador de todas as coisas que existem. Mas este ser que existe em sua mente como completo e perfeito precisa existir porque, se não existisse, não seria completo nem perfeito. A existência de Deus é uma característica essencial de sua perfeição.

Mas, ainda que a realidade do mundo externo à mente não seja uma brincadeira de mau-gosto, é certo que nos iludimos e enganamos muitas vezes. Isso não se deve à maldade de Deus, mas à imperfeição dos sentidos. O que Descartes vai fazer em seguida é tentar inteligir da sua experiência sensível algumas propriedades físicas, e o faz por meio da análise do pedaço de cera. Esta experiência consiste em observar as transformações que um pedaço de cera sofre ao ser aproximado do fogo. É uma tentativa de tornar clara e distinta a sua experiência com aquele objeto e, com isso, garantir a existência do mundo exterior. Cor, sabor, peso, aroma são propriedades que se alteram. As propriedades que nossos sentidos obtém de um pedaço de cera estão sujeitas à mudança, mas existe algo que permanece dessas mudanças todas e que é percebido de modo claro, não pode ser negado e distinto porque o separa das ilusões, que é a extensão. Se a cera mudar de sabor, de forma, de cheiro, ou de peso, ainda assim sobra algo de extenso e corpóreo.

Estes movimentos em busca da fundamentação das certezas para definição de um modelo científico seguro levaram Descartes a postular o dualismo “mente-corpo”. Ou seja, existem duas coisas de natureza distintas, a “coisa pensante” e a “coisa extensa”. Embora o racionalismo tenha perdido força na ciência e, hoje em dia, o método científico se baseie nos sentidos e nos experimentos para garantir nosso conhecimento, o dualismo cartesiano ainda tem adeptos em diferentes áreas do conhecimento que se interessam pela mente humana e seu funcionamento.

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