CULTURA – Alta Idade Média

De modo geral, a cultura e a mentalidade da Idade Média podem ser consideradas como teocêntricas (Deus estava no centro do universo e das preocupações dos homens medievais) e concentradas em uma só instituição, a Igreja Católica. Há diferenças, contudo, entre a cultura e a mentalidade do primeiro período medieval e do segundo.

Alta Idade Média

Durante a Alta Idade Média, podemos considerar a existência de uma cultura e uma visão de mundo calcadas na experiência da insegurança, do medo e do pessimismo, cujas origens se encontram, em parte, na realidade material da época: guerras constantes, fim da unidade política, descentralização, decadência do comércio e da vida urbana, perda do legado cultural greco-romano e a experiência da morte como vivência cotidiana.

O espírito do homem veteromedieval (vetero, do latim, “antigo”; referente à primeira ou à Alta Idade Média), portanto, encontrava alívio para sua experiência de mundo na esfera do divino, entendida como última esperança de salvação frente a um mundo de sofrimentos.

O ocaso da cultura letrada inicia-se em 529 com a destruição das escolas filosóficas atenienses por ordem do imperador Justiniano. Até o século XII, várias obras da cultura clássica greco-romana serão desconhecidas pelos medievais, de modo que a filosofia da Alta Idade Média pode ser considerada uma grande tentativa de conciliação entre a razão – calcada na tradição oriunda da Filosofia Clássica – e a fé – calcada na leitura das Escrituras –, tendendo muito mais para esta última. Os veteromedievais consideravam a Filosofia como ancilla theologiae, “serva da teologia”, uma vez que servia de auxílio para a Teologia. Esta postura permaneceu ao longo da Baixa Idade Média. Os conteúdos da especulação filosófica dos dois períodos, porém, eram muito diferentes.

O modo de pensar clássico da Alta Idade Média é a chamada Filosofia Patrística, que teve seu maior representante em (santo) Agostinho de Hipona (354-430). Ele é considerado o maior Doutor da Igreja (doctor ecclesiae) de todos os tempos. Suas reflexões, expressas em livros como “As confissões” e “A cidade de Deus”, sintetizam as bases do pensamento patrístico. De influência platônica, Agostinho via o homem como originalmente corrompido pelo pecado, de forma que somente através da graça divina ele poderia se salvar. Tal concepção tendia, portanto, a justificar a precedência da fé sobre o conhecimento racional. Como diz Étienne Gilson, na época patrística “não é para se tornar sábio que alguém se torna cristão, mas sim para se salvar”. Agostinho ainda desenvolveu uma filosofia da história calcada na doutrina da salvação cristã: a “cidade dos homens” (civitas hominae), corrompida pelo pecado e pelo afastamento do divino, reencontraria, por força da graça e da obra da Igreja, a “cidade de deus” (civitas dei), livre do pecado e do sofrimento.

A mentalidade da Alta Idade Média, encarnada na filosofia patrística, também se traduzia em esferas como a música e a arquitetura. Neste último registro, encontramos o predomínio do estilo românico, predominantemente horizontal e pesado, propiciador de ambientes escuros e simples, próprios à entrega espiritual, como se acreditava. De paredes grossas e sólidas, com poucas janelas, as catedrais românicas propiciavam também refúgio psicológico para o mundo de adversidades que cercava o homem medieval – guerra, fome, peste –, reforçando a ideia de que a salvação somente poderia ser encontrada em Deus.

Na música, a Alta Idade Média é dominada pelos temas litúrgicos, próprios do chamado canto gregoriano. Este gênero é monódico (só uma melodia), monofônico (somente uma fonte sonora, a voz, quase nunca acompanhada de instrumentos) e cantado em latim, a língua própria da classe clerical. O canto gregoriano era entendido como uma “oração musicada”, destinado, portanto, à lide religiosa. A posição do homem que canta é de subordinação e temor a Deus, que aparece como onipotente, onipresente e onisciente.