Cinema e Literatura: Um Diálogo

O Mito da Fidelidade

Quando pensamos nas relações entre Literatura e Cinema – e em muitas discussões que comparam obras literárias a filmes adaptados dessas obras – é comum encontrarmos uma exigência: a fidelidade do filme ao texto.

Os passos são muito parecidos entre todos nós! Lemos um livro e gostamos imensamente. Então, assistimos ao filme e não gostamos tanto ou, até mesmo, odiamos a reprodução da narrativa literária para as telas. No entanto, essa desaprovação geralmente advém da expectativa de que o filme seja igual – ou, ao menos, o mais fiel possível – ao livro. A questão é: essa expectativa faz sentido? Por que o filme deveria ser igual ao livro? E, por fim, existe a possibilidade de uma história contada via Literatura ser contada de forma igual via Cinema?

A expectativa de fidelidade, tão comum, talvez ignore que a Literatura e o Cinema são dois campos artísticos diferentes, que têm linguagens e formas de trabalho diferentes. Quando um diretor decide adaptar para o cinema o texto de um escritor, temos uma migração de uma arte para a outra, a migração de uma mídia para outra, e essa migração causa alterações inevitáveis.

Quando lemos um texto literário, cada um de nós, leitores, imprime a nossa própria visão sobre o que lemos. Ao lermos Literatura, independente de estarmos diante de um texto muito descritivo, criamos as nossas próprias imagens, o rosto dos personagens e os espaços onde a história ocorre. Ao vermos a adaptação fílmica desse livro, algumas cenas, algumas falas ou diálogos que nos marcaram muito durante a leitura podem ser eliminados na adaptação fílmica, por não terem sido tão importantes para o diretor ou roteirista. Um diretor é, também, um leitor! E, ao fazer o seu filme, o profissional dá à história a sua visão particular de leitor. Ele recria o livro do autor, apropria-se do texto e constrói uma outra obra.

Por isso, é importante questionarmos essa necessidade de fidelidade. Quando pensamos nos diálogos entre Literatura e Cinema – e há muitos! – precisamos perceber que, quando um autor escreve um romance, ele – em geral – não está pensando em termos cinematográficos. O autor não escreve um roteiro, ele escreve um texto a partir dos códigos da Literatura.

Narrativa: o Elemento que Une Literatura e Cinema

A Literatura e o Cinema são campos de criação artística diferentes. A relação entre eles, entretanto, se torna possível devido à visualidade que encontramos em muitos textos literários, o que permite que livros sejam transformados em filmes. Observem, então, que a Literatura pode servir como base para a criação de outras artes!

Muitos filmes que entraram para a História do Cinema do século XX se sustentaram em histórias ou em personagens que antes tinham existido nos livros.

Uma diferença importante entre Literatura e Cinema está no fato de que a primeira é uma arte muito mais antiga. A Literatura está consolidada como arte desde o berço de muitas civilizações. Aqui, no Ocidente, o registro das primeiras grandes obras da Literatura datam do século VIII a.C., quando do surgimento das famosas epopeias Ilíada e Odisseia, de Homero.

Já o Cinema estaria entrando na pré-adolescência, uma vez que surge na última década do século XIX. Isso não diminui em nada a importância da sétima arte, que logo que surge já começa a se apropriar da Literatura. As duas artes contam com um elemento muito importante em comum: a narrativa.

Por narrativa entendemos não só a contação de uma história, mas as ações de personagens em um tempo-espaço, construídas de forma sequencial e na qual os fatos podem ser narrados de forma linear ou não. A narrativa, portanto, é o elemento em comum mais importante do diálogo entre Literatura e Cinema. No primeiro caso, ela é desenvolvida essencialmente através de palavras; no segundo, através de imagens. O elemento narrativo também vai aproximar a Literatura dos jogos de videogame, uma vez que muitos jogos se constituem a partir de histórias altamente elaboradas.